Ponderações

Os últimos 20 anos

Tenho essa foto que gosto muito na minha sala. Eu tinha 24 anos quando foi tirada. Hoje, faço 44 e olhando para ela tenho uma enorme vontade de sentar com essa moça e contar para ela o que se passou durante esse tempo.

Queria poder contar a ela que nada, mas absolutamente nada, do que ela imaginava aconteceu e que tudo bem, que ainda assim deu tudo certo. Queria dizer a ela que seus medos, suas angustias eram apenas bobagens, pois a vida tem seu curso, tem seu fluxo e tudo vai se encaixando, entrando no lugar, sendo como deveria ser.

Aquela moça que estava no último ano de jornalismo poderia saber que seu sonho de trabalhar na Tv nunca se realizou, que o trabalho em assessoria de comunicação, que ela achava que seria temporário, durou quase felizes 20 anos, que depois dos 40 ela foi trabalhar com digital, uma coisa que ela nem entenderia naquela época, mas tão legal que ela adoraria saber!

A moça da foto, que estava prestes a casar pelos motivos mais errados, merecia saber que aquilo não deu tão certo e nem durou tanto, apenas um ano, e, diferente de tudo que imaginou, ela teve um menino incrível, um filho único e maravilhoso, de uma relacionamento que deu certo por sete anos e se desfez. Ela nunca imaginaria nada disso – até porque ela achava que o perfeito era ter um casal, ainda que a ideia de ter filhos a apavorasse.

Queria dizer a ela que toda  aquela certeza que ela tinha, que todas as brigas que ela comprou por ter tantas certezas, foram perda de tempo e de energia, que nada daquilo realmente importou e ao longo desses 20 anos suas certezas foram mudando tanto que se transformaram em leve “achismo”.

Se pudesse me sentar com ela ali, no Centro de São Paulo, ao lado do Teatro Municipal, naquela manhã quente de 1996, contaria a ela que foram anos de felicidades, descobertas, muitos aprendizados, comemorações, decepções, períodos de solidão, tomadas de decisão, risadas, choros.

Queria contar a ela que na passagem desse tempo surgiram pessoas boas, generosas, companheiras, pacientes, sensíveis, amorosas, que mostraram como a vida deve ser vivida, elas apontaram a melhor direção, também surgiram pessoas más, egoístas, sacanas, oportunistas, cruéis e elas ensinaram muito, talvez elas tenham sido as melhores lições.

Ela merecia saber que viajou para os lugares que desejava e para mais outros que nem imaginou. Descobriu depois dos 30 a delicia e prazer de viajar sozinha. Passou a gostar cada vez mais de ficar sozinha e percebeu que não se conhecia tão bem quanto imaginava naquela época.

Diria a ela que ainda houve muita tentativa em saber do futuro, como ela já fazia desde sempre. Foram mapas, cartas, búzios, runas, videntes, tudo! Mas no fim uma grande sacada: que o futuro é construído no dia a dia, um passo de cada vez.

Por fim diria a ela que o grande barato desses 20 anos foram as mudanças, que no começo fizeram sofrer e causaram muito medo, mas depois foram sendo incorporadas e aí, já sem dor, ajudaram a crescer.

Seu eu pudesse reencontrar aquela menina de 24 anos, diria a ela que amei cada dia que vivi nesses últimos anos, não mudaria nada, e que tenho imensa gratidão por cada alegria e tristeza ao longo desse caminho, pois foram elas que me trouxeram, da maneira que tanto me orgulho até aqui.

Ana Paula Z Feitosa

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